Seg, 15 de Maio de 2017 16:31

Coral brasiliense vai se apresentar no Carnegie Hall, em Nova York


 

Subir ao palco do Carnegie Hall, em Nova York, é um sonho que ronda 10 entre 10 artistas da música. Ali, aconteceram as estreias mundiais de grandes clássicos da história da música, como a Sinfonia nº 9 – Novo Mundo, de Antonin Dvorak, Um americano em Paris, de George Gershwin, e a abertura para a ópera Candide, de Leonard Bernstein. É normal, portanto, que o maestro Daniel Moraes, paraense radicado em Brasília, fale em palco mágico quando se refere à casa, um prédio mítico de arquitetura neo-renascentista localizado a duas quadras do Central Park. O maestro e seu Tutti Choir, formado por 32 vozes, embarcam para Nova York no final do mês para participar da estreia da Missa de Alcaçus, do compositor Danilo Guanais, no Carnegie Hall.



O Tutti é um coral novo, formado no ano passado por um grupo apaixonado por música. Apenas cerca de 30% dos integrantes tem formação profissional em música e todos são de Brasília. A iniciativa foi do maestro Daniel Moraes, proprietário da empresa Soncietá, que organiza corais corporativos em programas de qualidade de vida. Estão sob a regência de Moraes os coros do Banco do Brasil, do Ministério da Educação e dos Correios. O Tutti Choir só é corporativo porque representa a própria Soncietá, mas funciona em esquema de voluntariado: os integrantes são, simplesmente, apaixonados por canto. Além de cantar em uma das mais prestigiadas casas de espetáculos de Nova York, o coro também tem apresentações agendadas na Our Lady of Pompeii Church e no Central Park.

Formado em regência pela Universidade de Brasília (UnB), Moraes trabalhou, durante seis anos, com o Coro Sinfônico da UnB, o primeiro coral brasileiro a subir ao palco do Carnegie Hall, em 1994. “Eu não cantei com eles nessa ocasião”, lembra o maestro. “E nunca pensei que fosse receber um convite desse para levar um grupo para cantar lá. Dá uma responsabilidade grande de subir em outros palcos depois disso. O Carnegie é, sem dúvida, um dos momentos mais importantes na carreira de qualquer músico porque é uma referência de sala de concerto com qualidade”, explica.

O convite para o Tutti Choir veio do maestro Vladimir Silva, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Regente do coro da universidade, que também vai cantar em Nova York, ele recebeu o convite do Distinguished Concerts International New York (DCINY), departamento responsável pela programação internacional do Carnegie Hall. “Convidei o Tutti Choir para participar porque é um coro de referência e o trabalho do maestro Daniel é sério e muito engajado. É um grupo de 32 apaixonados por canto e coral que tem se dedicado com muito afinco. É um trabalho de referência que tem um respaldo e, por isso, a gente incluiu”, explica.

O repertório foi escolhido pelo próprio Silva, que decidiu fazer uma homenagem aos 20 anos da Missa de Alcaçus, um símbolo mais moderno do movimento armorial de Ariano Suassuna. A peça nasceu em 1996 e a partitura tem prefácio do escritor paraibano. Foi gravada e celebrada como o início de uma nova estética armorial, já que veio ao mundo mais de duas décadas após os primeiros passos do movimento. Silva pediu a Guanais que fizesse uma revisão da obra e a nova versão terá estreia mundial no Carnegie Hall. 

Escrita para coro, dois solistas, conjunto de cordas e uma orquestra regional, a missa foi modificada e a parte instrumental, adaptada para piano. A orquestra regional foi mantida e a formação de zabumba, triângulo e agogô subirá ao palco da casa ao lado do tenor Jonai Nascimento e da soprano Julie Cavalcanti. “A peça é baseada no romanceiro de Alcaçus, uma coletânea de cantos que as mulheres cantam nessa região, nos arredores de Natal”, explica o maestro. “O romanceiro fala sobre canções de trabalho, amor, vida e morte, de reinos encantados, e o compositor utiliza as melodias como base para composição.”

Carnegie Hall
Além do Coro Sinfônico, o Coro do Senado e o Coral Adventista de Brasília também se apresentaram 
no Carnegie Hall.

Alcaçus
A
Missa de Alcaçus foi inspirada numa série de canções tradicionalmente cantadas por mulheres de Alcaçus, cidade do interior do Rio Grande do Norte. O cancioneiro é herança colonial e vem de uma tradição medieval de narrativas fantásticas. Quando Danilo Guanais compôs a peça, ela logo passou a integrar o repertório do movimento armorial. A heráldica com os símbolos que ilustram a capa do CD e os sons de rabeca misturados ao ritmo do baião e das cavalgadas fizeram Suassuna se encantar pela obra. A peça de Danilo Guanais tem todos os movimentos característicos de uma missa e influências eruditas de nomes como Bach e Mozart, mas também uma estética que se aproxima sem pudores da tradição dos cantores da cultura popular nordestina.

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