sábado, 21 de outubro de 2017


Qui, 10 de Agosto de 2017 19:25

Indústria das sexcams, um dos setores da pornografia que mais crescem no mundo


No coração de Bucareste, a capital da Romênia, um grupo de jovens mulheres fuma, conversa e ri alto do lado de fora de um edifício.

À primeira vista, uma cena normal. Mas é uma manhã de sol, e as mulheres usam maquiagem pesada, saltos muito altos e roupas para lá de ousadas em comparação com outros transeuntes.

No interior do prédio, a produtora Studio 20 ocupa o primeiro e o segundo andar. Há 40 salas e os corredores brancos repletos de fotos de mulheres em poses glamourosas.

Se alguma das salas está com as portas fechadas, isso significa que negócios estão em andamento: naquele espaço, uma mulher está ao vivo, via webcam, conversando sobre sexo com um cliente internacional. A atividade é conhecida como sexcam.

Na Romênia, se a profissional está sozinha na sala, a atividade é perfeitamente legal.

Sandy Bell

Lana trabalha na Sala 8, que é dominada por uma cama redonda com almofadas. Há um guarda-roupa contendo algumas de suas peças.

"Normalmente uso vestidos, lingerie ou roupas de couro", diz.

Em um canto do quarto há uma ampla tela de computador, uma câmera de aparência cara e, por trás delas, luzes de fotografia profissionais.

Diversas pessoas podem ver Lana online em tempo real, em um site adulto. Mas ela só ganha dinheiro quando um usuário solicita uma sessão privada via webcam.

 

Trabalhando oito horas por dia, Lana ganha o equivalente a cerca de R$ 14,8 mil por mês - quase dez vezes mais o salário médio mensal na Romênia.

A Studio 20 também recebe o mesmo pelas sessões. O maior lucro, porém, é da LiveJasmin, a empresa que gerencia a transmissão do conteúdo e a cobrança de cartões de créditos de clientes: cerca de R$ 30 mil.

A LiveJasmin é o maior hospedeiro de câmeras de internet do mundo. Recebe de 35 a 40 milhões de visitas de usuários por dia e normalmente há 2 mil modelos ao vivo online.

A indústria de webcams gerou receitas entre R$ 6 bilhões e R$ 10 bilhões em 2016.

Opção na crise

Lana trabalhava como corretora de imóveis, mas a crise econômica de 2008 levou a Romênia à recessão. Foi quando ela entrou na indústria dos bate-papos virtuais em vídeo. Seu primeiro dia em frente à câmera foi complicado.

"Estava sozinha na sala, e parecia que havia centenas de pessoas à volta. Não conseguia lidar com tudo o que falavam e me pediam. Mas aprendi a ser mais perceptiva e ver quem poderia ser um potencial freguês que pagaria (por sessões particulares) e a não perder tempo."

Mas o que acontece na sessão privada?

"Na maioria, é só conversa. Eu também faço encenações e uma pequena parte tem nudez e masturbação", explica Lana.

Os clientes por vezes pedem que ela faça coisas que não deseja, mas Lana conta que consegue controlar a situação.

"É um empoderamento. Como mulher, é seu papel ditar o ritmo."

O mais importante é manter o cliente pagante online pelo maior tempo possível.

"Você tem dez minutos para ser sexy e bonita, e aí precisa arrumar alguma coisa para conversar, do contrário o cliente vai embora", explica Andra Chirnogeanu, gerente de relações públicas da Studio 20.

 

Para isso, a empresa emprega orientadores, psicólogos e um professor de inglês. A maioria dos clientes é da América do Norte e da Europa, então é fundamental que as modelos possam conversar com eles.

Mas a professora de inglês, também chamada Andrea, transmite mais do que conhecimentos linguísticos.

"Conversamos sobre fetiches, estudamos Freud e psicologia. Temos ainda um livro sobre linguagem corporal, porque mulheres precisam ser sensuais, inteligentes e bonitas.

Geografia também é importante, para que as modelos possam conversar sobre as terras natais dos clientes.

"Não estamos apenas em uma indústria do sexo, ao contrário do que muita gente pensa. As modelos precisam conversar com um cliente como se estivessem em um relacionamento online. Têm de ser capazes de discutir muitos assuntos, para que os dois lados se sintam confortáveis."

Segredo

A Studio 20 tem nove filiais na Romênia, incluindo uma para o mercado gay. Conta também com escritórios em Cali (Colômbia), Budapeste e Los Angeles.

 

Mas nem todos os modelos trabalham de um estúdio.

A decoradora de interiores Sandy Bell faz parte de um pequeno exército de mulheres que usa webcams de suas próprias casas. Ganha cerca de R$ 370 por dia quando entra online. Uma vantagem de trabalhar diretamente com a empresa de web hosting é que a modelo recebe uma porcentagem maior do pagamento dos clientes.

"A maioria dos clientes é agradável. Muitos clientes estão procurando por amor. Querem uma conexão, pedem que você os chame pelo nome. Sou muito honesta com eles - eles sabem que tenho um namorado, que não vão fazer sexo comigo na vida real."

O namorado mora com ela em um apartamento nos arredores de Bucareste. Ele sabe o que Sandy faz, mas os pais dela, não. Não é incomum que trabalhadores dessa indústria escondam o que fazem de parentes e amigos. Por isso é que as pessoas que conversaram com a BBC usaram seus pseudônimos ou apenas um primeiro nome.

Mas ao contrário de outras profissionais do sexo, Sandy Bell não se preocupa com sua segurança.

"O que um cliente pode fazer comigo? Se ele sequer for rude comigo, clico o mouse e paro tudo. Posso ainda conversar com o administrador do site e banir o endereço de IP, o que impediria o sujeito de entrar no bate-papo de novo mesmo se mudasse o login. Essas pessoas estão a milhares de quilômetros de distância. Não sou tocada. Trabalho sozinha online. Não tem nada a ver com prostituição."

Livre arbítrio ou manipulação?

Mas há quem veja Sandy Bell como uma vítima. A acadêmica Irina Ilisei, por exemplo, não vê muito livre arbítrio na questão.

"Essas mulheres escolhem ou são forçadas a trabalhar com isso? Ou será que é uma manipulação psicológica que se vale de uma falta de estabilidade econômica? Provavelmente é uma combinação de tudo isso."

Irina vê fatores como o alto número de casos de gravidez na adolescência e a taxa de desemprego de 30% para recém-formados como outros fatores que empurram mulheres da direção da indústria do sexo.

 

As empresas também fazem sua parte, explica a acadêmica.

"Há anúncios nos campi universitários, e estudantes recebem ofertas de trabalho diretamente em suas contas no Facebook. Os estúdios adotam um ar corporativo, e o discurso é sobre independência e empoderamento."

Para, Lana, de 31 anos, o trabalho rendeu dinheiro suficiente para criar sozinha sua filha e até investir algum dinheiro. Ela pretende deixar o trabalho em dois anos.

Mas nem todas têm opção. Oana, de 28 anos, foi aliciada por um namorado aos 16 para trabalhar com bate-papos em vídeo.

"Ele me disse que eu só precisava falar. Mas estava no quarto comigo e nós fizemos pornografia lá."

É proibido na Romênia que homens e mulheres participem juntos de algo do gênero, mas é impossível dizer o quão frequentemente a lei é desrespeitada.

Oana acabou trabalhando como prostituta na Alemanha antes de voltar para Bucareste e se juntar a uma organização que tenta persuadir jovens a não migrar para a indústria do sexo.

"Há meninas que pensam que apenas vão ficar em frente à câmera e ganhar dinheiro. Mas as coisas que fazem vão afetar sua cabeça. O próximo passo é a prostituição."

 

Lana discorda.

"Estou vendendo meu cérebro, não meu corpo. É como um show, mas não é um trabalho para todo mundo. Muitas meninas desistem em uma questão de dias. Eu não me sinto explorada."

Andra Chirnogeanu, gerente de relações públicas do Studio 20, também rejeita ideia de que o trabalho é arriscado ou psicologicamente negativo.

"Psicologicamente negativo é passar 12 horas por dia em um escritório recebendo salário mínimo."

Mas o fato é que modelos frequentemente escondem o que fazem. Se Lana e Sandy Bell pudessem ganhar a vida usando suas qualificações universitárias, será que ainda escolheriam tirar a roupa para clientes em Nova York, Frankfurt e Londres? (Da BBC Internacional)

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