domingo, 19 de agosto de 2018


Seg, 11 de Junho de 2018 00:23

Minoria silenciosa elegeu Trump nos EUA. Pode ocorrer o mesmo com Bolsonaro no Brasil?

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As surpreendentes vitórias de Trump e do Brexit são atribuídas à vontade do “eleitor envergonhado”, que não é captada pelas pesquisas. Para alguns analistas, a eleição brasileira pode ser influenciada por esse fenômeno . E Bolsonaro seria o maior beneficiado

Os EUA (e o mundo) foram tomados de espanto em 9 de novembro de 2016: contrariando as pesquisas, Donald Trump havia sido eleito presidente. Cinco meses antes, outro voto-surpresa: os britânicos decidiram em referendo tirar o Reino Unido da União Europeia, o chamado Brexit. Dentre várias explicações para a falha dos institutos de opinião, uma foi a de que os levantamentos não conseguiram captar a vontade do “eleitor envergonhado” – aquele que tem receio de admitir em público como pretende votar.

Analistas avaliam que o fenômeno tem relação direta com a dificuldade dos partidos e dos políticos tradicionais em solucionar os problemas das democracias contemporâneas. Valores democráticos consagrados passam a ser questionados. Mas, como ainda são o padrão socialmente aceito, parte dos cidadãos sente vergonha de admitir publicamente que discorda desses princípios. E também de dizer aos entrevistadores das pesquisas que pretende votar em pessoas que se opõem a esse padrão.

Como o Brasil não está imune à crise de representatividade contemporânea, uma questão que se impõe é: o país pode ser afetado pelo voto envergonhado na eleição presidencial?

Especialistas divergem nas respostas. Mas alguns dizem que sim. E, nessas circunstâncias, há um nome que poderia ser o maior beneficiário desse tipo de eleitor: o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ), que rotineiramente é tachado de autoritário, homofóbico, machista, fascista – características difíceis de serem defendidas publicamente.

Desempenho de Bolsonaro é melhor nas pesquisas telefônicas: isso pode indicar que ele tem eleitores envergonhados

Pesquisa do DataPoder360 divulgada na última terça-feira (5) deu um sinal de que Bolsonaro pode ter eleitores envergonhados. Num dos cenários do levantamento, ele obteve 25% das intenções de voto – ligeiramente acima do patamar entre 15% a 20% que vinha conseguindo em sondagens de outros institutos de opinião.

A principal diferença da pesquisa do DataPoder360 em relação às demais é que ela foi feita por telefone. Os entrevistados responderam às perguntas para uma máquina e não a uma pessoa.

Para o cientista político Bruno Bolognesi, coordenador do Laboratório de Partidos Políticos e Sistemas Partidários (LAPeS) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a presença pessoal do pesquisador pode funcionar como um inibidor para parte do eleitorado de Bolsonaro admitir que quer votar nele. Isso tende a não ocorrer na pesquisa telefônica.

Levantamento da Gazeta do Povo também sinaliza nessa direção. Em todas as pesquisas e cenários divulgados pelo jornal desde o ano passado (o que inclui sondagens de cinco institutos), os dez melhores desempenhos de Bolsonaro são justamente nos levantamentos por telefone.

O eleitor envergonhado é sintoma da crise dos partidos tradicionais, que não estão dando conta de administrar os conflitos sociais. (...) É um voto conservador contra os princípios hegemônicos da democracia

Trump, Brexit e Bolsonaro: todos têm posições contra posições políticas majoritárias

Estudiosa do processo de decisão do eleitor, a cientista política Maria do Socorro Braga, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), lembra que Bolsonaro tem uma agenda política que se choca com vários valores políticos hegemônicos nas democracias.

São posturas que rendem ao candidato inúmeras críticas. Parte de seu eleitorado pode não estar disposta a defender essas posições publicamente, embora acredite que elas sejam necessárias para resgatar a ordem e a segurança no país.

Nesse sentido, é possível traçar paralelos entre o sentimento de um suposto eleitor envergonhado de Bolsonaro com os casos de Trump e do Brexit. Nos EUA e no Reino Unido, as campanhas vitoriosas exploraram o ressentimento de parte da população contra os estrangeiros, sejam eles os imigrantes (vistos como potenciais criminosos ou terroristas) ou as empresas do exterior beneficiadas pela globalização (perda de empregos para outros países).

O livre fluxo de pessoas entre países e os mercados abertos (a globalização) são dois princípios políticos que se consagraram nas democracias – e que agora vêm sendo questionados como causadores de problemas sociais.

Maria do Socorro afirma que há sinais de que nos EUA e no Reino Unido o eleitor envergonhado reagiu nas urnas, sem se expor publicamente em pesquisas, contra o padrão hegemônico aceito socialmente. Ela acredita que isso pode vir a ocorrer com Bolsonaro. (Matéria publicada oririnalmente no jornal Gazeta do Povo/Curitiba)




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