Qua, 27 de Junho de 2018 11:52

Crise na Venezuela separa milhares de crianças de seus pais

Imagem do país do ditador Maduro... Imagem do país do ditador Maduro...


Rubén, um garoto tímido de 11 anos, define a tristeza que sente com poucas palavras. "É como um vazio por dentro", diz ele.

Propenso a longos silêncios, o garoto é uma das muitas crianças da Venezuela que estão ficando sem pai ou mãe por causa do exôdo gerado pela crise.

"O que me ajuda a preencher o vazio é o esporte", diz o pequeno. Sua mãe foi em janeiro para a Colômbia e agora ele está sendo criado por sua tia Leivis.

Quatro vezes por semana, Rubén vai sozinho de sua casa até um centro cultural onde joga futebol. Apesar dos problemas de segurança e transporte em Caracas, ele diz não ter medo.

Outros garotos chegam acompanhados de seus pais, mães, irmãos e amigos. Já Rubén não tem ninguém para torcer por ele.

Rubén

Sua mãe, que antigamente o levava ao futebol, foi em busca de trabalho para o país vizinho.

A Colômbia é o principal destino dos venezuelanos que fogem da pior crise econômica da história do país e buscam oportunidades em outros lugares.

Uma análise recente do Acnur, o comissariado da ONU (Organização das Nações Unidas) para refugiados, estima em 1,5 milhões o número de pessoas que saíram da Venezuela nos últimos anos.

O país ocupa o quarto lugar entra as nacionalidades que mais pedem asilo no mundo, atrás apenas do Afeganistão, da Síria e do Iraque.

O Brasil e a Colômbia já tratam a situação como um crise migratória, mas ela também tem efeitos internos na Venezuela. Alguns são positivos, como o envio de dinheiro dos imigrantes para a sobrevivência da família que fica no país. Outro são negativos, como a ruptura familiar: o abandono de crianças que ficam a cargo de avós, tias, vizinhos... Ou de ninguém.

'Ela foi por nós'

Rubén se lembra vividamente do momento em que sua mãe deu a notícia de que estava indo embora.

"Ela me disse e eu entendi: ela foi para lutar por uma vida melhor para ela, para mim e para meu irmão. Não foi por ela, mas por nós", diz ele, repetindo a fala dos adultos.

 

Seu quarto, com uma televisão com pouca definição, é seu refúgio.

Ali, ele assiste aos jogos da Copa do Mundo e se lembra de sua mãe e de seu irmão de oito anos. Depois que a mãe foi embora, o irmão de Rubén começou a se comportal mal, o que fez com que sua mãe o levasse embora antes.

O plano é que em julho, depois do fim do semestre escolar, seja a vez de Rubén. "Vai ser uma nova experiência, muito emocionante", diz o menino.

"A mãe dele vendia café e não ganhava o suficiente para manter os meninos", explica sua tia Leivis, mãe de uma garotinha de 3 anos que às vezes fica sob o cuidado de Rubén.

Seu pai o abandonou faz tempo, algo que é bem comum na Venezuela, principalmente nas classes mais baixas. Como em toda a América Latina, os bairros pobres de Caracas estão cheios de mãe, tias e avós que sustentam sozinhas famílias numerosas.

Consequências psicológicas

Ainda que Rubén tenha suas necessidades materias atendidas, o exôdo gera outras consequências.

"Tem implicações para as crianças mais fortes do que imaginamos", diz o psicoterapeuta Óscar Misle à BBC News. Misle é fundador da Cecodap, uma entidade de direitos humanos que promove o cuidados com a infância e a adolescência na Venezuela.

 

As consequências também são sentidas na escola.

A rede beneficente de escolas jesuitas Fé e Alegria registrou em cerca de 3,7 mil alunos que ficaram sob os cuidados de terceiros neste ano por causa da migração dos pais, entre os mais de 100 mil casos semelhantes no país todo.

"As crianças podem entender que os pais têm que ir. Mas no fundo não estão preparadas para lidar com o abandono", explica Noelbis Aguilar, diretora nacional do programa escolar da entidade.

"Sentir-se sozinho, triste e sem orientação afeta as crianças física e psicologiamente, o que vai se refletir em seu desenvolvimento", diz Aguilar. Ela afirma que as crianças podem se tornar violentas ou retraídas.

Isso tudo sem contar as dificuldades econômicas que passam em um país com hiperinflação e desabastecimento de alimentos e outros produtos básicos.

Cada vez pior

Óscar Misle diz que a separação de famílias por causa da migração tem se tornado cada vez mais frequente.

É uma situação nova sobre a qual não há dados oficiais. Mas pouco a pouco surgem números que a confirmam.

"Todo dia aparecem entre 30 e 40 pessoas pedindo ajuda porque vão sair do país e querem saber como transferir a guarda ou como obter autorização para levar os filhos junto", diz Nelson Villasmil, conselheiro de proteção de crianças e adolescente da cidade da Sucre, na religião metropolitana de Caracas.

 

Segundo ele, as consequências desse fenômeno são difíceis de mensurar e ficarão mais evidentes no longo prazo. Uma delas é a chamada "infância perdida".

É o caso de Luiz, de 11 anos, que teve de assumir o cuidado de seu irmão Alonzo, de 8 anos.

A mãe dos dois foi para a Colômbia e eles ficaram com o pai. Não falta comida, mas a vida dos dois mudou.

Como sua mãe não os acompanha mais, eles andam uma hora sozinhos todos os dias para chegar à escola. E mais uma hora na volta. Quando chegam em casa à tarde, Luiz esquenta a comida feita por seu pai, que trabalha o dia todo.

 

filhosLuiz também lava a louça, varre o chão e vai comprar água, e ajuda o irmão mais novo com as tarefas de casa. Os dois passam quase a tarde toda sozinhos.

"Queria ir com a minha mãe porque sinto falta dela e não é igual", diz Luiz.

Culpa

Outro efeito da separação é a culpa que as mães e os pais sentem ao ir buscar oportunidades melhores.

É o caso de Vanessa Uribe, que não volta à Venezuela faz cinco meses. Ela está na Colômbia tentando ganhar dinheiro suficiente para recuperar os filhos, que deixou voluntariamente em uma entidade de proteção de crianças em Caracas.

"Estava trabalhando muito e não tinha como cuidar deles", diz ela por telefone de Valledupar, uma cidade no norte da Colômbia.

 

"Me arrependo", diz a mãe, que envia dinheiro para seus pais toda semana. Ela quer que os filhos voltem morar com os avós logo, senão a entidade terá que encontrar uma nova família para eles.

O sonho de Uribe é se estabelecer na Colômbia e levar os filhos com ela.

Fome

As avós são quem, tradicionalmente, cuida das crianças.

Maria Meza, de 54 anos, está criando as três netas de 8, 7 e 3 anos. Sua filha também está na Colômbia. "Chegou um dia em que ela já não tinha mais como alimentar as meninas", explica Meza sobre os motivos da viagem de sua filha.

A jovem agora trabalha em um restaurante e envia toda semana o dinheiro à família, com quem conversa todos os dias.

 

"Ela me disse que foi trabalhar para comprar nossa casa, roupas e omida para que eu engorde", diz Alexandra Valentina, de 7 anos.

Apesar de tudo, a situação delas não é das piores. As meninas ainda têm comida em casa e não precisam jantar na escola que frequentam, em umas das áreas mais perigosas de Caracas.

As crianças que estão em situação pior jantam na escola, que recebe doações para conseguir alimentar os alunos mais necessitados. Desde o fim de 2017, 50 alunos foram retirados por seus pais para irem morar no exterior. E outros 66 tiveram pelo menos um dos pais indo morar em outro país.

A rua

O Idenna, uma entidade governamental para auxílio a crianças sem teto, tem registrado cada vez mais casos de meninos e meninas que vivem na rua.

E muitos deles estão relacionados com a imigração.

É o caso de Ismael, de 11 anos, que ficou com seu pai quando a mãe migrou, mas acabou indo morar na rua.

Ele fugiu duas vezes do centro de acolhida que o abrigou em Caracas. Na segunda vez, foi encontrado perto da fronteira com a Colômbia.

"Estava procurando minha mãe", conta ele.

(Daniel García Marco e Dalila ItriagoDa BBC News Mundo em Caracas)

Ruben em sua cama assistindo televisão




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