domingo, 22 de setembro de 2019


Qua, 22 de Maio de 2019 11:08

A Rússia está tentando influenciar a eleição do Parlamento Europeu?

(Ilustração: Getty Images) (Ilustração: Getty Images)


Autoridades da União Europeia afirmam que a Rússia está usando desinformação para influenciar o resultado das eleições do Parlamento Europeu, que serão realizadas de 23 a 26 de maio. Mas esses alertas devem ser levados a sério?

"O inverno não é a única coisa que está chegando - a exemplo do risco de interferência em nossas eleições", disse Julian King, comissário de segurança da União Europeia, em uma entrevista no final do ano passado.

O principal suspeito é a Rússia. Autoridades europeias dizem que o Kremlin há anos vem usando desinformação para semear discórdia e confusão em toda a Europa, ao mesmo tempo em que abala a confiança dos eleitores na União Europeia e em suas democracias.

A Rússia nega categoricamente tais acusações, chamando-as de "completamente falsas" e "infundadas". Mas alguns especialistas afirmam que o descontentamento dos eleitores com o bloco europeu - exatamente o suposto alvo de Moscou - não deve ser atribuído à influência de atores estrangeiros (como a Rússia), mas sim à política doméstica.

Quais são as provas da interferência russa?

Para muitas pessoas, expressões como "desinformação" e "notícias falsas" só apareceram no radar depois das eleições presidenciais dos EUA em 2016, na qual, de acordo com agências de inteligência americanas, a Rússia teria agido secretamente para influenciar o resultado. O governo russo classifica essa acusação de "absurda".

 

Mas autoridades em Bruxelas (sede da União Europeia) têm tomado medidas contra desinformação de origem russa detectada desde pelo menos 2015, com a criação da força-tarefa East Stratcom. É uma unidade de 15 pessoas cuja missão é identificar e expor quaisquer tentativas do Kremlin de enganar e confundir cidadãos do bloco europeu.

 

Giles Portman, que lidera a força-tarefa, disse à BBC Trending: "A evidência compilada há vários anos mostra que a Rússia tem procurado influenciar os processos democráticos europeus".

"Tentativas foram feitas para hackear e vazar, ou para atacar a credibilidade de determinados políticos, ou deturpar certas políticas. A melhor maneira de a Rússia se fortalecer é enfraquecer seu oponente."

 

Como exemplo, Portman cita as eleições de 2017 para o Parlamento alemão, na qual nacionalistas de direita foram supostamente apoiados pela Rússia.

 

Além das eleições presidenciais francesas naquele mesmo ano, quando meios de comunicação financiados pelo Kremlin foram acusados de "espalhar mentiras" durante toda a campanha eleitoral. Houve também, na época, suspeita de que a Rússia estava envolvida em uma invasão de hackers na campanha de Emmanuel Macron, hoje uma das principais figuras empenhadas na defesa da unidade da União Europeia.

E nas eleições do Parlamento europeu neste ano?

As autoridades ouvidas pela BBC admitem que hoje há pouca evidências de tentativas em grande escala de espalhar desinformação diretamente relacionada à votação desta semana - que elegerá 751 deputados de 28 países membros da União Europeia.

"Pelo que vimos da campanha eleitoral europeia até agora, parece menos sensacional do que algumas das tentativas que vimos [no passado]", diz Giles Portman. "O que podemos ver no momento é a manutenção de uma mensagem de que a Europa está em colapso, de que as elites não estão prestando atenção às pessoas comuns e de que os valores e identidades da Europa estão sob ameaça."

Mas as eleições tiveram destaque nos meios de comunicação financiados pelo Kremlin, incluindo a emissora RT e a agência de notícias Sputnik.

"Eles vêm abordando o tema constantemente nos últimos meses", diz Olga Robinson, que cobre desinformação para a BBC Monitoring. "Eles parecem estarmeios de comunicação financiados pelo Kremlin."

Algumas dessas mensagens se assemelham com as que são postadas ou compartilhadas por partidos anti-UE, populistas e antiestablishment que vêm ganhando terreno em toda a Europa nos últimos anos. Pesquisas de opinião sugerem que esses grupos políticos provavelmente aumentarão seu número de assentos no Parlamento Europeu.

Sendo assim, como a União Europeia pode garantir que seus esforços para combater desinformação não prejudicarão o debate democrático legítimo?

"De maneira alguma estamos tentando dizer às pessoas no que acreditar, como votar ou interferir no direito das pessoas de manter qualquer opinião que desejem manter", diz Portman, da força-tarefa europeia contra desinformação. "Estamos apenas questionando a manipulação do debate e dizendo que as opiniões das pessoas são melhor baseadas em fatos."

Quão a sério a União Europeia está tratando esse tema?

A Comissão Europeia, braço executivo do bloco, afirma que a desinformação é parte da estratégia militar da Rússia, e que Moscou gasta até € 1,1 bilhão (quase R$ 5 bilhões) em mídia pró-Kremlin - uma soma enorme comparada ao orçamento da força-tarefa East Stratcom, de € 3 milhões (cerca de R$ 13,8 milhões), a ser gasto até ao final de 2020.

A força-tarefa administra um banco de dados aberto ao público, no qual lista e desmistifica artigos de notícias publicados pela mídia russa que, segundo sua análise, contêm falsidades e mensagens de desinformação pró-Kremlin. Até o momento, o grupo europeu compilou mais de 4,5 mil casos, além de publicar um boletim semanal com algumas de suas descobertas.

Embora a força-tarefa agora se concentre apenas nos meios de comunicação russos com ligações com o Kremlin, ela foi criticada em 2018 por listar artigos publicados por meios de comunicação holandeses como exemplos de desinformação.

À época, a força-tarefa East Stratcom foi acusada de tentar sufocar a liberdade de imprensa e quase enfrentou processos judiciais. Em reação, o grupo recuou e removeu os três artigos de seu banco de dados.

Mas a unidade é apenas uma pequena parte do "plano de ação contra a desinformação" mais amplo da União Europeia, divulgado em dezembro do ano passado.

Há também campanhas de conscientização digital, financiamento adicional para equipes de especialistas encarregados de detectar desinformação e acordos mais amplos firmados com gigantes de mídia social como Google, Facebook e Twitter. Busca-se tornar a propaganda política mais transparente e remover contas falsas.

Um "Sistema de Alerta Rápido" também foi criado para ajudar os governos europeus a responderem em tempo real a novas ameaças de desinformação. Mas o porta-voz da Comissão Europeia, Johannes Bahrke, afirmou à BBC que nenhum alerta foi acionado até o momento.

A desinformação pode estar em curso a partir de outros envolvidos?

Em sua busca por sinais de campanhas de desinformação de origem russa, especialistas identificaram evidências de tentativas de espalhar informações enganosas - surgindo não de pontos ligados ao Kremlin, mas de grupos partidários baseados na União Europeia.

"Esses grupos parecem estar impulsionando conteúdo altamente polarizado", diz Olga Robinson, da BBC. "Algumas das mensagens que tenho visto nas últimas semanas foram construídas em mentiras completas."

Ela diz que muitas dessas mensagens ecoam a desinformação pró-Kremlin.

"Isso não significa que eles estejam de alguma forma conectados. Pode ser que a Rússia esteja aproveitando esse tipo de agenda eurocética, e eles têm feito isso há muito tempo", afirma Robinson.

O que empresas de segurança da tecnologia afirmam?

Um relatório da empresa de segurança americana SafeGuardCyber afirma que contas usadas inicialmente durante o conflito da Ucrânia em 2014, na ocasião da ocupação russa da Crimeia, foram reutilizadas agora em uma ofensiva digital para influenciar as eleições parlamentares da União Europeia.

Segundo Otavio Freire, diretor de tecnologia da empresa, 241 milhões de contas foram expostas a esse tipo de conteúdo em redes sociais no continente europeu. A estratégia, afirma, foi criar uma "narrativa" própria em cada país (com apoio a coletes amarelos na França e ao Brexit no Reino Unido, por exemplo), mais voltada a impulsionar conteúdo tido como falso do que elaborar informações deturpadas (como afirma-se ter ocorrido nos EUA em 2016).

Em entrevista à BBC News Brasil, a empresa explica que criou um sistema com uso de inteligência artificial que identifica contas associadas à propagação de conteúdo falso anteriormente, padrões de comportamento e cruza o conteúdo compartilhado neste ano com sites de checagem de informação. "Desta forma, temos alta confiança de que a notícia veiculada é desinformação."

O estudo, que analisa postagens feitas em março deste ano, cita três tipos de atores nessa estratégia: bots (contas automatizadas em redes sociais, chamadas de robôs), trolls (humanos que respondem ou amplificam conteúdos) e híbridos (humanos que usam softwares para se comunicar em massa nessas plataformas.

O que a Rússia afirma sobre todas essas acusações?

Em comunicado, a embaixada russa em Londres classificou as acusações de interferência eleitoral de "completamente falsas" e "infundadas".

A BBC também procurou o canal de notícias russo RT para comentar o assunto. Em nota, a vice-redatora-chefe, Anna Belkina, disse que as alegações de desinformação contra os meios de comunicação russos "servem para silenciar e expulsar vozes legítimas do debate público".

"É ingenuidade pensar que, se o RT não existisse, os problemas que abordamos não existiriam", disse ela. "Negligenciar vozes discordantes é o que minou por muito tempo o establishment político-midiático, não o RT".

A União Europeia pode estar superestimando essa ameaça de interferência?

Apesar de toda a atenção da mídia que tem sido dada ao assunto nos últimos anos, algumas pesquisas acadêmicas colocaram em xeque o alcance da desinformação e das notícias falsas em todo o continente.

Há também aqueles que, embora reconhecendo que a desinformação apoiada pela Rússia é real, argumentam que a resposta da União Europeia é equivocada.

"Ao se concentrar na desinformação russa, a Comissão Europeia está mudando o foco das questões políticas subjacentes mais urgentes, e isso é perigoso", diz Julia Rone, pesquisadora do Departamento de Política e Estudos Internacionais da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

"Há pessoas que estão legitimamente preocupadas com a desigualdade econômica, com o desemprego entre os jovens e especialmente com a imigração", diz ela. "Há muita mobilização da extrema-direita em toda a Europa e ela não pode ser atribuída simplesmente a agentes estrangeiros". (Marco Silva, BBC Trending/Colaborou Matheus Magenta, da BBC News Brasil em São Paulo)

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