segunda, 9 de dezembro de 2019


Seg, 17 de Junho de 2019 22:50

Refugiados no Brasil são mais qualificados, mas têm menos chance de emprego


Pesquisa coordenada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) traçou o perfil dos estrangeiros refugiados residentes no Brasil. Conforme o estudo, eles são mais bem qualificados, mas com menos oportunidades de emprego do que os brasileiros. Vindos em maior número da Síria e da República Democrática do Congo, os refugiados demonstram elevado capital linguístico e capital escolar acima da média brasileira. Grande parte tem formação de terceiro grau completo e muitos já concluíram alguma pós-graduação.

O excelente nível de qualificação, no entanto, não se reflete nas oportunidades de emprego ofertadas a essa população que massivamente está trabalhando em atividades diferentes da sua formação. A forma autônoma de trabalho é a adotada pela maioria dos refugiados e, dentre os que possuem emprego formal, poucos utilizam suas habilidades profissionais anteriores.

Os dados são da primeira pesquisa sobre o perfil socioeconômico dos refugiados no Brasil. Apresentado no dia 30 de maio, o estudo foi realizado por um conjunto de universidades brasileiras e coordenado nacionalmente pela UFPR, em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur).

Para a obtenção dos números, foram entrevistados 487 refugiados reconhecidos pelo Comitê Nacional para Refugiados (Conare) residentes em 14 cidades distribuídas em oito Unidades da Federação: São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul, Distrito Federal, Santa Catarina, Minhas Gerais e Amazonas. Juntas, essas regiões concentram 94% dos refugiados sob a proteção do governo brasileiro.

De acordo com a pesquisa, São Paulo é o estado que mais recebe estrangeiros nessa situação (57,7%), seguido pelo Rio de Janeiro (17,86%) e pelo Rio Grande do Sul (7,39%). O Paraná é o quarto colocado acolhendo, atualmente, 6,78% dessa população que se divide, principalmente, entre as cidades de Curitiba e Foz do Iguaçu.

São pessoas que estão fora de seu país de origem devido a fundados temores de perseguição relacionados a questões de raça, religião, nacionalidade, pertencimento a um determinado grupo social ou opinião política, como também devido à grave e generalizada violação de direitos humanos e conflitos armados (ACNUR). O conjunto de refugiados no Brasil compreende mais de cinco mil pessoas e origina-se, majoritariamente, de quatro países: Síria, República Democrática do Congo, Angola e Colômbia.

O alto nível de capital linguístico e escolar apontado na pesquisa não tem se traduzido em capital econômico como emprego e renda. Esse dado pode ser explicado pelo preconceito racial e contra estrangeiros, pela falta de recursos para buscar trabalho, pela falta de documentos e, principalmente, pelo baixo índice de diplomas revalidados. Apenas 14 refugiados residentes no País já revalidaram seus diplomas. A UFPR, desde a resolução específica para migrantes humanitários e refugiados, revalidou 11 pedidos que se incluem nessas duas categorias.

A coordenadora do Programa Política Migratória e Universidade Brasileira (Pmub),Tatyana Friedrich, explica que a plataforma Carolina Bori, sistema do  Ministério da Educação para gestão e controle de processos de revalidação e reconhecimento de diplomas estrangeiros no Brasil, oferece poucas vagas para realização desse procedimento nas instituições públicas de ensino superior, que são as únicas que podem revalidar. Além disso, a documentação exigida é muito grande.

Migrante quer continuar a estudar

A pesquisa mostra que a alta taxa de escolaridade dessa população apresenta-se como um estímulo à continuação dos estudos no Brasil. Muitos entrevistados demonstram interesse de estudar no País. A Universidade Federal do Paraná (UFPR), por exemplo, possui mais de cem alunos migrantes, refugiados e apátridas que ingressaram por diversas formas.
Entre outros dados da pesquisa comandada pela UFPR, revelou-se que cerca de 80% dos refugiados têm renda domiciliar inferior a R$ 3 mil, enquanto 20% recebem entre R$ 3 e R$ 5 mil e apenas 4% têm renda superior a esse valor. A imensa maioria dos entrevistados (91%) revelou ter amigos brasileiros, muitos refugiados fariam uma nova solicitação de refúgio no País (84%) e a maioria (57%) tem o desejo de trazer seus familiares para morarem no Brasil.




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