terça, 15 de outubro de 2019


Dom, 23 de Junho de 2019 13:52

Cientista e mulher na Amazônia: o que contam pesquisadoras brasileiras que trabalham na região

Zoóloga Ana Cristina Mendes de Oliveira, da UFPA, estuda como as atividades humanas afetam os mamíferos da região; acima, ela fazendo soltura de animal na Amazônia (Foto: Arquivo pessoal) Zoóloga Ana Cristina Mendes de Oliveira, da UFPA, estuda como as atividades humanas afetam os mamíferos da região; acima, ela fazendo soltura de animal na Amazônia (Foto: Arquivo pessoal)

Cientista e mulher na Amazônia: o que contam pesquisadoras brasileiras que trabalham na região

Assim como ocorre em diversas outras áreas de atuação, o território da ciência costuma ser mais difícil de ser percorrido pelas mulheres do que pelos homens. Muitas vezes elas têm que enfrentar desafios que vão além das pesquisas propriamente ditas, como o machismo, que leva à desconfiança sobre seu desempenho profissional e intelectual.

A necessidade de conciliar viagens e trabalho de campo com a gravidez ou maternidade dificulta ainda mais a seleção delas para determinadas atividades, por vezes levando-as a cargos e funções menos valorizados.

Os obstáculos são ainda maiores e mais numerosos para as cientistas que trabalham na Amazônia, região vasta, pouco conhecida e onde o clima e o ambiente não são nada amigáveis, sem falar na violência e insegurança de alguns locais.

Para a bióloga Patrícia Schneider, da Universidade Federal do Pará (UFPA), por exemplo, que estuda a biologia evolutiva e do desenvolvimento de animais, as dificuldades de se fazer pesquisa na Amazônia "são com certeza" maiores do que em qualquer outro lugar no Brasil.

"Além da logística complicada para termos acesso aos locais da pesquisa, o clima quente e a alta umidade prejudicam equipamentos, que sofrem com contaminação por micro-organismos", diz. "Infelizmente, nossos prédios de laboratórios não têm infraestrutura para manter o condicionamento adequado e, por isso, a manutenção dos aparelhos tem que ser feita com uma frequência e custo maiores do que em outras regiões."

A também bióloga e mestre em Ecologia Fernanda Werneck, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), lembra que todo trabalho de campo, principalmente naquela região, possui riscos inerentes e acidentes não são raros, quer seja na locomoção entre locais de estudo, como, por exemplo, de carro ou naufrágios, quer seja na execução das atividades de pesquisa, quando podem ocorrer com ferramentas e cobras ou alergias.

"Na Amazônia, a dificuldade de acesso rápido a centros de tratamento médico e envio de socorro acabam apresentando risco adicional às pesquisadoras e pesquisadores", acrescenta. "Infelizmente não são raros os casos de acidentes sérios e até fatais com colegas de profissão."

Numa região dominada pelas águas, não poderiam deixar de existir dificuldade nelas, que são os principais caminhos da Amazônia. Que o diga a pesquisadora Maria Teresa Fernandez Piedade, do Inpa, que estuda a ecologia, adaptações, crescimentos e produção de biomassa da vegetação que vive nas margens dos rios.

"Uma vez, felizmente não muito longe de Manaus, apenas cerca de 25 km, estávamos fazendo uma coleta de capins aquáticos em uma canoa de alumínio com motor de popa", conta. "Ao iniciar o retorno, a hélice do motor bateu em um tronco e ficou totalmente destruída."

Mas foi pior do que isso. Nesse momento, a equipe se deu conta de que havia apenas um remo na canoa.

"Éramos cinco pessoas e logo percebemos que não havia alternativa: teríamos que remar com as mãos", lembra Maria Teresa. "A distância não era tão grande, mas as correntezas dos rios Solimões e Negro que tivemos que atravessar eram poderosas. Felizmente tudo acabou bem. Chegamos com insolação, mas contentes a Manaus, após remar por cerca de seis horas. Atualmente todos os envolvidos são bem cuidadosos com o número de remos nas canoas."

Apesar desses obstáculos e contratempos, nenhuma pesquisadora quer deixar de trabalhar na região. As recompensas são maiores que os percalços.

"É um grande privilégio trabalhar na Amazônia", diz a própria Maria Teresa. "A geração de conhecimento sobre essa fonte fantástica de biodiversidade é inigualável. Muito ainda temos por conhecer para utilizar este patrimônio com a devida sustentabilidade, então, cada resultado e trabalho finalizado é uma grande recompensa."

Para Fernanda, que, entre outros temas, estuda os efeitos das mudanças climáticas sobre a diversidade genética, capacidade adaptativa e riscos de extinção de espécies, as recompensas são significativas.

"Temos a possiblidade de conhecer regiões incríveis, se conectar com a natureza e intrigantes questões ecológicas, trabalhar com grupos biológicos e questões científicas que nos instigam e trazem satisfação e assim gerar conhecimento essencial sobre a nossa biodiversidade e vital para sua conservação", explica. "Entretanto, ainda assim é importante ressaltar que o trabalho de campo é árduo e requer capacitação especializada e a segurança das pessoas que o fazem é um importante aspecto trabalhista e profissional a ser considerado."

(Por Evanildo da Silveira/De São Paulo para a BBC News Brasil)




Twitter - Políticos

Jair Bolsonaro


Ratinho Junior


Rafael Greca


Álvaro Dias


Flavio Arns


Professor Oriovisto Guimarães

S5 Box